EM NOSSAS VIDAS

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“A partir de nossa solidão, todos nós buscamos uma fonte de amor que irá preencher a carência que sentimos dentro de nós, e é exatamente isso que acontece, nem mais nem menos.”

Essa bênção da paixão vem do espírito, mas pode ser bloqueada pelo ego. O ego é responsável pela proteção de sua auto-imagem; ele cria os compartimentos onde todas as coisas indesejáveis sobre você foram escondidas.

O que bloqueia o amor não é a presença dessas energias sombrias, mas a divisão da psique que surge quando seu ego começou a construir barreiras internas. O amor é um fluxo, e as paredes impedem o fluxo.

Em termos espirituais, este é o problema da dualidade. Separando o bom do ruim, o certo do errado, nós essencialmente insistimos que partes de nós não merecem ser amadas – por que outro motivo as manteríamos fora de vista? Nos transformamos em pacotes, exatamente o tipo de coisa sobre a qual Delaney falava.

O pacote parece só conter coisas boas e dignas, mas se outra pessoa se aventura a nos amar, o pacote todo se abre, e um bocado do que ele contém não é tão agradável.

A conseqüência mais cruel da dualidade é acreditarmos que é certo trancar o amor do lado de fora. “Estar aberto” é equivalente a “ser fraco”. E a sociedade reforça essas dualidades nos recordando, dia após dia, que esse não é um mundo onde o amor é seguro.

Como a maioria das pessoas, não encontro muito amor, exceto dentro de meu lar. Ao despertar, vejo o rosto de minha esposa a meu lado, e em muitas manhãs me espanto com o amor inefável que esta visão inspira, algo muito mais delicado e comovente do que posso expressar.

No entanto, ao lado da minha cama, também está o jornal que leio para dormir, e nele está todo o ódio que alguém possa imaginar. Em cada página confronto o fracasso catastrófico do amor.

Existe um fracasso pessoal na quantidade avassaladora de divórcios, litígios e amargura social com que aprendemos a conviver. Existe o fracasso público na guerra, criminalidade e opressão, que todos nós rezamos para não nos atingir.

Embora ninguém possa dizer para onde foi o amor, é um sinal perigoso que estejamos cercados por tantas imagens fingindo ser amor. Todos os dias somos saturados, afogados com imagens de romances de livros e filmes, bombardeados com sexo em anúncios, e estimulados de todos os lados para que nos tornemos mais atraentes para conquistar algum amante “perfeito(a)”.

Delaney estava lutando no pântano do não-amor, como todos nós estamos, para tentar encontrar alguma coisa que ele realmente não conseguia nomear.

“E se você se sentasse e imaginasse a mulher perfeita esperando lá fora por você”, sugeri. “Você provavelmente fez isso muitas vezes, mas desistiu. Bem, acho que você vai encontrar essa mulher, e que isso vai acontecer no momento em que se desapegar da imagem dela. Parece um paradoxo, mas desapegar-se precisa ser o primeiro passo para encontrar alguém que o ama, porque o amor nunca é uma imagem. Amar não depende nem um pouco de valores externos.”

“Sei disso”, ele respondeu, com súbita e surpreendente gentileza. “Achava que não tinha escolha, a não ser ter algum tipo de imagem em minha mente. Senão, seria como procurar no escuro.”

“A maioria das pessoas tem essa preocupação”, concordei. “Ela reflete sua própria crença secreta de que não são tão desejáveis assim, o que faz com que tenham medo da solidão. Pelo menos elas têm uma imagem para fazer-lhes companhia. Há uma questão mais profunda aqui, contudo. O amor alguma vez surge de fora de nós?”

“Naturalmente que vem”, disse ele.

“Vá mais fundo”, provoquei. “Todos nós acreditamos na dualidade, que cria a percepção de que as pessoas são separadas. Você e eu parecemos separados, sentados aqui nesta sala. Nós temos corpos separados, mentes separadas, memórias e passados separados.
A separação é o fundamento de toda nossa existência.

Mas parte de você detesta viver na separação – detesta o medo, a solidão, a suspeita e a alienação que vêm de estar totalmente isolado. Essa parte da sua personalidade chama o amor para solucionar seu sofrimento. Se você puder encontrar alguém para amá-lo, talvez a separação seja curada.”

“Você não faz a minha vida parecer muito bonita”, lamentou-se Delaney.

“Não”, admiti. “Mas no fundo de seus corações, a maioria das pessoas sente as dores da separação; não é segredo algum.”

“Deixe-me perguntar, você realmente acredita que existe alguém perfeito lá fora esperando por você? Por mais comum que seja esse mito, a realidade é diferente. Esse alguém esperando por você é um reflexo de sua pessoa. A partir de nossa solidão, todos nós buscamos uma fonte de amor que irá preencher a carência que sentimos dentro de nós, e é exatamente isso que acontece, nem mais nem menos.”

“Eu não sei como responder a isso”, falou Delaney.

“Se você observar a si mesmo de perto o bastante”, continuei, “perceberá os padrões. A maioria dos homens, por exemplo, sente uma falta de ternura, que eles procuram encontrar numa mulher. A maioria das mulheres sente uma falta de força, que esperam encontrar num homem. Seja qual for a necessidade, a pessoa que a preenche se torna uma fonte de amor;”

“A questão é, como fazer para que isso continue acontecendo? Pode uma pessoa que corresponde às nossas necessidades continuar a fazer com que nos sintamos amados?

Acho que não. Todos nós temos coisas demais escondidas em nosso interior; muita coisa precisa ser curada. Assim, com o tempo a fonte externa do amor se apaga; ela deixa de ser eficiente. E então certas verdades surgem:

“Você nunca pode receber mais amor do que está preparado para receber”.
“Você não pode dar mais amor do que tem para dar.”
“O amor refletido de outra pessoa tem sua fonte no seu próprio coração.”

O motivo por que o amor de fontes externas pára de funcionar é que você não resolveu a separação, só a encobertou.

“Então, e aí?”, perguntou.

“Você fica numa encruzilhada. Pode sair novamente e procurar o amor a partir de alguma fonte nova, pode se virar com o que tem, pode se voltar para outras satisfações que não o amor, ou pode ser totalmente honesto e desistir da busca de elementos externos.”

Tínhamos então chegado a um ponto crítico. O caminho para o amor começa quando você percebe que a separação, a solidão e a dor do isolamento são reais.

Poucas pessoas querem encarar esse fato, e portanto elas se conformam com uma quantidade tristemente limitada de amor. Como uma fonte de cura, o amor não conhece seus limites, mas você precisa estar disposto a levar todo o seu ser para ele. Só então flui o bálsamo do amor.

“Tem uma coisa que eu realmente admiro em você”, disse eu a Delaney. “Acho que você vai ficar surpreso com o que é. Você não se conformou com imitações. Em alguma parte sua, ainda está esperando pela coisa verdadeira.

” Delaney olhou nos meus olhos; ele assentiu muito de leve. “É muito difícil falar sobre essa coisa”, continuei, “esse anseio sem nome que só o amor pode preencher. O que nós esperamos? Qual é a coisa verdadeira, que não o dilúvio de imagens sobre romance, sexo e prazer infinito com que o amante ideal supostamente deve nos presentear? Na verdade nós somos o dom e somos o doador.”

“A dualidade é e sempre foi uma ilusão. Não há ninguém lá fora esperando por você. Só existe você e o amor que você traz para si. No espírito, você está unido com todas as outras almas, e a única finalidade da separação é reunir-se a essa unidade.”

“Que torna o amor a única bênção”, retrucou Delaney, suavemente. Ficamos sentados por um momento, deixando suas palavras ressoarem dentro de nós, porque tinha sido como se ele houvesse falado a partir do meu coração também. “Sim”, confirmei.

“O amor é a única bênção, e isso significa todo o amor. Se o amor é a realidade suprema, como os grandes mestres nos ensinam, então o mais leve gesto de conexão é um gesto de amor. Atravessar o muro da separação, seja na direção de um amigo, amante, família ou estranho, é agir em nome do amor, quer percebamos isso conscientemente ou não.”

Tínhamos alcançado um momento especial, que ambos queríamos apreciar em silêncio. Conversávamos no escritório de Delaney no subúrbio de Boston, numa sala comum, mas durante um momento nada comum. O caminho para o amor sempre aparece de maneira inesperada.

Nosso mundo contém tamanha quantidade de caos e confusão que é um milagre existir um caminho. No entanto, enquanto existir a separação, existirá uma ponte.

“Acho que você descobriu um de meus segredos”, disse Delaney depois de uma pausa. “Eu tinha deixado de acreditar que alguém lá fora realmente me amaria tanto quanto eu gostaria”.

“O amor não exige fé”, respondi. “Porque a separação é uma ilusão, acreditar nela é que exige fé. O amor é real. Ele pode ser contido, nutrido, sentido, aprendido, e confiado.

Portanto, abandone a sua fé; pare de desejar e de esperar, e volte seus esforços para o que é real. A dualidade é tão frágil que está pronta para se desfazer a qualquer momento.

Em nossas imaginações acreditamos que o amor está separado de nós. Na verdade, não existe nada além do amor, uma vez que estejamos prontos para aceitá-lo.”

Texto do livro: O caminho para o amor
Autor:
Deepak Chopra

Fonte: http://www.velhosamigos.com.br/Autores/Deepak/deepak19.html

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2 respostas a EM NOSSAS VIDAS

  1. margarida diz:

    amei este texto e estava mesmo a necessitar lê-lo. Obrigado meu amigo

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