Amor próprio vs Egoísmo

É um tema muito sugestivo. Normalmente, penso que o amor-próprio é uma versão do egoísmo, relacionado com o orgulho. Quando nas nossas relações algo nos fere, é o nosso amor-próprio que se revolta com a injustiça ou a falta de respeito. Atacaram a nossa dignidade, fizeram-nos sentir menores. E isso é desconfortável e faz-nos reagir. Tenho sempre a impressão que as motivações que nascem de sensações desagradáveis não são boas, e as acções que pomos em movimento através delas acabam por magoar e romper qualquer coisa.

Pode-se também pensar em amor-próprio como uma versão da auto-estima (um amigo meu disse-me um dia que esta palavra lhe causa arrepios e eu, pensando melhor sobre isso, também concordo com ele). Este amor-próprio nasce do desejo de nos afirmarmos naquilo que somos, de termos uma palavra a dizer, de nos sentirmos úteis. E quando isto não acontece, quando não somos reconhecidos, surgem de novo feridas e reacções desagradáveis.

Creio que pode haver um ponto de equilíbrio entre todas estas sensações. O amor-próprio está ligado a algo natural em nós, uma espécie de instinto de sobrevivência, para não desaparecer no mundo das relações. O grande segredo está no modo em como usamos esta nossa energia, em que somos felizes com aquilo que somos, temos e fazemos. No fundo como gostamos de nós e nos mostramos aos outros, como nos fazemos reconhecer e amar.

O egoísmo não é bom, o centro do mundo sou eu, e isso é uma fonte de tensão e desolação, porque simplemente a Vida e as suas circunstâncias, as minhas relações, não funcionam com interesses de ilhas isoladas, de querer controlar tudo e todos, mas segundo modos de comunicação e partilha, de ganhar e perder. Fico doente, os outros não fazem o que quero, o patrão não reconhece o meu valor, não tenho tempo para o que quero… e tudo isto estraga o meu mundo imaginário. Terei de viver o que sou de outra maneira.

A energia do amor-próprio deveria ser usada num dinamismo de humildade e simplicidade. Ser humilde não é apagar-se, mas é reconhecer a própria bondade e beleza, que é algo fundamental em cada um de nós e que nunca desaparece. E comunicar o que sou com simplicidade, com vontade de ser melhor e estar disponível. Um professor meu usa muitas vezes uma frase de Shakespeare que gosto muito: “Readiness is all”. Estar pronto para tudo, para o que acontecer, sabendo que a minha capacidade de fazer o bem em todas as circunstâncias não desaparece.

Isto implica uma coragem gigantesca, que vive em perfeita harmonia com a humildade de saber que não posso dominar tudo, e a simplicidade de aceitar a Vida como oportunidade de me questionar e ver que coisas estou pronto para fazer. Este amor-próprio é extremamente criativo e corajoso, forte, e pode trazer muitos frutos àquilo que vivo com os outros.

Fonte: http://amar-tesomente.blogspot.pt/2009/03/amor-proprio-vs-egoismo.html

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